terça-feira, 19 de julho de 2011

A Bicicleta Azul 2 - Vontade de Viver - Régine Deforges

Tempo de novos amores, novos perigos.
Na França ocupada, a coragem de resistir.


1942-1944. No vendaval da Segunda Guerra Mundial, a jovem e bela Léa Delmas se defronta com as exigências do amor e a fragilidade dos sentimentos.
A sobrevivência, na França ocupada pelos nazistas, impõe agora opções dramáticas, e ela adere ao movimento da Resistência, com todos os seus riscos, vindo assim a testemunhar os horrores da guerra.
Só a vontade de viver, a juventude e a sensualidade de Léa Delmas lhe permitirão suportar tudo...





A Bicicleta Azul é uma das séries de guerra empolgantes que já li. O primeiro volume, cuja resenha já foi postada aqui no blog, da início a toda a trama, apresenta personagens forte em conflito com a guerra recém iniciada. Este segundo volume continua a história de maneia envolvente e emocionante.
Desta vez a guerra se apresenta em seu período mais crítico, muito mais presente e feroz na vida das personagens. A gestapo entra em ação, impiedosa, a dominação parece não ter fim. Para piorar as coisas, em Montillac Léa tem problemas com seu empregado Fayard e seu amigo de infância Mathias que querem tomar-lhe a propriedade.
Léa parece não ter mais tempo de sonhar com Laurent, por que se declarava apaixonada, tornando-se a cada instante mais realista e forte. A esse amadurecimento se deve o seu envolvimento cada vez mais estreito com a Resistência. Ela participa de ações perigosas que lhe põe a vida em risco por várias vezes.
Com a ajuda de François Tavernier, Léa esconde sua amiga Sarah Mulstein que foi cruelmente torturada pelos alemães, correndo perigo de ser ela mesma denunciada por seu amigo Raphael Mahl.
O romance entre Léa e Tavernier se torna mais profundo neste livro, cada vez mais repleto de sentimentos, que embora ela teime em não assumir existem. François por sua vez não esconde de ninguém o que sente por ela, e faz de tudo para tê-la por perto, porém sem jamais se humilhar.
Sempre tive muito gosto em ler livros de guerra, este não decepciona. É uma saga muito bem narrada, profundamente emocionante, porém, ao mesmo tempo, profundamente realista.
Considerei diversos trechos muito intrigantes, repletos de sensibilidade e até crueldade. Tão realistas que emocionam. Eu não poderia deixar de compartilhar um desses trechos, apenas alerto os leitores para os Spoillers.
A seguir uma parte de um dos capítulos finais do livro, a tortura de Raphael Mahl:

De todos os lados os golpes choviam.
Logo não havia mais um rosto. Por várias vezes Adrien Delmas tentara intervir. Mas o ódio ensurdecia a multidão. Alguém  o socou... Quando voltou a si, sentia-se na barraca um cheiro de
carne queimada. Sobre grandes risadas e gritos um longo,urro subia... O dominicano levantou-se... Sentado no fogão, mantido por dezenas de mãos, Raphael Mahl grelhava...
Enquanto com propostas obscenas alguns comentavam seu suplício.
- Olhem como ele se torce... Ele gosta disto!
- Está brincando de prostituta... Escutem como ele grita!
- Talvez fosse melhor se lhe tivéssemos enfiado um ferro em brasa
no cu.
-Já imaginou um fim melhor para uma tia!... O sonho!
- Sim... Mas como isto cheira mal, é carne de maricas!
- Não é a carne dele que exala, é a merda... Ele cagou por todos
os lados.
- Não se preocupe... Agora acabou de cagar e de fazer cagarem.
O horror duplicou as forças do padre Delmas. Empurrou os torturadores e arrancou Raphael do fogão. Um pedaço de carne ficou colada à chapa escaldante. Rolaram por entre os pés da multidão que se afastou. Houve um momento de silêncio. Nos braços de Adrien, Raphael abriu um olho e aquilo que fora uma boca esboçou um sorriso que era uma careta.
Naquela face macerada era horroroso. Tentou falar. Um jato de sangue escorreu pelo queixo.
- Não diga nada.
- É estúpido demais... Tinha uma idéia... para um romance... -
conseguiu articular.
Havia admiração no espanto com que Adrien Delmas olhou aquele que sonhara ser um grande escritor e que, às portas de uma morte atroz, ainda tinha forças para gracejar.
- Diga a Léa... que eu... gostava muito dela...
- Eu lhe direi.
- Saia daí para acabarmos com essa carcaça.
-"Por favor! Deixem-no! Não lhe fizeram mal o suficiente?
- Não - disse Rodriguez, arrancando-o dos braços que tentavam
protegê-lo.
- Não - continuou Fernando -, é preciso que isto sirva de exemplo a
todos alcagüetes, a todos os colaboradores que estão
neste campo e fora dele. Vamos, rapazes... acabemos com isto...
Todos aqueles homens que se lançaram sobre ele... Aquele fervilhar
de mãos em seu corpo... Aquelas caras que se debruçavam sobre ele e que só via através de uma névoa de sangue... Era como um vapor... Aquilo lembrava-lhe os banhos de vapor em Amei, alto local de pornografia clandestina, onde se procura, se apalpa, se abraça com a cumplicidade de
todos. Terrível local, onde os braços, as mãos, tem uma viscosidade de polvo... Uma descida aos infernos entre homens em cacho, sacudidos por um único espasmo, com um único profundo suspiro, que parece, entre aqueles peitos apertados e frementes, subir das próprias entranhas da terra... Ali, as mãos desconhecidas, triturantes, sábias e detestáveis, procuram
fazê-lo sofrer... e matá-lo... Logo as imagens desapareceram da sua memória... Só as cores violentas como descargas elétricas subsistem... O lindo verde.., o azul... o vermelho.., o preto... Estrelas prateadas palpitam no negro... negro... negro.
Ali, no fundo do acampamento, uma certa mão se levantou e traça o sinal da cruz.
Logo os homens se cansaram de bater naquela massa mole e disforme que ainda os salpica de sangue. O cadáver os enoja.
- E se puséssemos o que resta deste porco no caixote do lixo?
- Boa idéia.
Nessa noite, o cadáver de Raphael Mahl foi jogado no depósito do lixo e coberto de imundícies. De manhãzinha, os detidos encarregados do oficio recolheram o corpo e o colocaram num caixão tosco.
Nem os guardas nem os policiais haviam reagido.” 285-287



Veja a resenha do primeiro volume da série AQUI!




Um comentário:

  1. Nossa... li a resenha e não consegui conter a curiosidade e li o trecho do livro. Não sei nem o que falar depois dessa cena. Que dó!!!
    BjOss

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Beijos♥
H.C.C.Reis

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